Observatório Alviverde

16/04/2018

PERMITAM-ME UMA DIVAGAÇÃO!


A maior parte das pessoas mais velhas que, como eu, ainda teimam em permanecer no planeta, têm um péssimo costume.

Desvalorizam e até ridicularizam as novas gerações, sob a alegação de que em seus tempos tudo era melhor. 

Não é bem assim! 

O homem antigo (em meu entendimento), de fato, era mais trabalhador, mais dedicado, e, consequentemente, mais talentoso. A luta pela sobrevivência o fazia assim!

Na mesma medida, era mais versátil, mas o era apenas e tão somente em decorrência das necessidades prementes impostas por seu tempo em que a tecnologia, além de escassa, era cara e não prevalecia.

O homem de hoje é muito mais esclarecido, mais bem informado e um parceiro da tecnologia, o que o torna menos ocupado, mais seguro, mais livre e, por conseguinte,  muito mais acomodado.

Para não ampliar demais nosso debate, circunscrevo-me  ao futebol, objeto de nosso blog, arte em que, sob certos aspectos, evoluímos e sob outros, decaímos.

Fisicamente, verificou-se uma enorme melhora respaldada pelo aumento da estatura média das novas gerações e do desenvolvimento da medicina.

Tecnicamente, não, porquanto não vejo tantos jogadores talentosos quanto os via em meus temos de juventude.

Taticamente o atleta de hoje está bem mais preparado para cumprir as instruções, mas esbarra na falta de liderança e de prática dos técnicos hodiernos, de parco talento e pouca inventividade.  

Sem querer ir tão longe, eu, que vivi e convivi com tantas gerações de times, dirigentes, juízes, jogadores, mídia e torcidas, só posso dizer que em qualquer tempo e em qualquer geração sempre houve e haverá vantagens e desvantagens em relação às situações e aos tempos que se compara.

Entretanto, sem nenhum medo de errar, ouso afirmar que o mal maior do futebol brasileiro hoje em dia, decorre do complexo de vira-lata que o domina, arraigado e disseminado que está (esse mal) em nossos dirigentes, jogadores, imprensa e torcida, ressalvadas as exceções às quais me orgulho de pertencer.

Para quem desconhece o significado da expressão, da lavra e autoria do famoso escritor e jornalista esportivo carioca Nelson Rodrigues, tentarei defini-la da maneira mais fácil, compreensível e possível.

Complexo de Vira Lata é um estado psicopatológico que acomete a maioria dos brasileiros em relação a certos povos do planeta, mormente os americanos e parte  dos europeus, com os quais os nossos compatriotas se comparam e, inexplicavelmente, se creem e se julgam inferiores.

Defino-o como uma espécie de narcisismo às avessas, um estado de subserviência racial acompanhado por uma submissão cultural que induz os nossos compatriotas a valorizar, exclusivamente, o que é de fora, ou o que vem de fora, em detrimento das coisas do Brasil.

Os primeiros jogos que abriram o Brasileirão/18 aos quais assisti neste fim de semana comprovam, na prática, o que afirmamos em teoria, que o ludopédio brasileiro perdeu - c-o-m-p-l-e-t-a-m-e-n-t-e - a sua identidade, a partir do momento em que passou a copiar os europeus.

Não satisfeitos por imitar-lhes as táticas e os esquemas de jogo, os dirigentes brasileiros, tangidos pela mídia modista e vassala adotaram até os padrões de entrada em campo das equipes europeias.

Em face dos "merchans" das camisas dos repórteres, a Globo proibiu o trabalho dos repórteres de rádio (veículo que consagrou o futebol no Brasil)  nos gramados, acabando com espetáculo das entrevistas que, embora confuso era  jocoso, atrativo e interessante e os estádios, grandes auditórios.

Da mesma forma, intervieram até nas leis do jogo alterando aspectos que estavam em vigência há muitos anos até decidiram que bola na mão agora é pênalti sob quaisquer circunstâncias, ao que acrescento: exceto se ocorrer contra o Curica ou contra o Flamengo.  

O interessante dessa história é que, antigamente, os europeus mandavam seus técnicos ao Brasil para observar os nossos times e os nossos jogadores, pois, normalmente, perdiam para os brasileiros tanto nos confrontos entre times como nos jogos entre as seleções, fosse no Brasil ou fora do Brasil.

Foi assim que o Palmeiras "arrebentou a banca" e "quebrou tudo" na Espanha vencendo o torneio Cidade de Barcelona, em 1969, ao derrotar na final o próprio Barcelona por 2 x 1, ressalvado o show de bola.

Convidado para o mais famoso e "glamouroso" de todos os torneios interclubes da Europa até os dias de hoje, o Troféu Ramon de Carranza, em Cadiz, Espanha, o Verdão levantou o título desse torneio por três vezes, em 1969, 1974 e 1975.

Paralelamente, na Copa do México de 1970, a Seleção Brasileira atropelou todos os adversários europeus que encontrou pelo caminho e foi, folgadamente, a campeã mundial daquele ano goleando a Itália, na grande final, por 4 x 1. 

Nessa época o Brasil imponha ao mundo o seu estilo e o seu modo de jogar, paradigmas mundiais. O Palmeiras, ao Brasil!

Era assim porque tínhamos grandes dribladores, improvisadores e finalizadores, tanto e quanto jogadores cerebrais que, individualmente, faziam a diferença e demoliam qualquer esquema, até as retrancas mais ferozes.

Só que, a partir daí, com o encurtamento e desvalorização dos campeonatos estaduais e o lento fechamento de centenas de clubes do interior, o futebol brasileiro se renovou pouco, perdeu seu viço e, como consequência foi derrotado nas Copas subsequentes a partir de 1974 a 1994, quando, nos Estados Unidos e a duríssimas penas, derrotou a Itália em decisão através de penalidades máximas. 

Essa entressafra longa e penosa foi decorrente de  nosso complexo de vira-lata,  isto é, da mania que tem o brasileiro de achar que tudo aquilo que inventam ou que acontece na Europa é melhor do que tudo o que inventamos e acontece no Brasil. 

Iniciamos a importação da formulação de campeonatos só factíveis em países de pequena ou média extensão territorial, o que aniquilou o futebol do interior, decretando a falência de tantos clubes e seccionando a renovação de valores. 

Começamos a importar os esquemas táticos europeus a partir da Copa de 74, após uma derrota cruel da Seleção de Zagalo para a Holanda do técnico Rinus Michels  por 0 x 2.

O Brasil tinha um bom elenco, mas com um time dividido e desentrosado com Rivelino em campo e Ademir da Guia no banco, sucumbiu.

Foi derrotado implacavelmente por uma seleção que tinha, entre outros jogadoraços , Sourbie, Neeskens, Rep, Rosembrinc e o extraordinário Johann Cruyf, (o melhor jogador da época e daquela copa).

A midia mundial exaltava o time holandês em prosa, verso e canção por ela estar, pretensamente, exibindo o auge, o climax da bola, naquilo a que chamavam de futebol total.

Mas o tal futebol total do tamanquinho laranja sucumbiu diante da praticidade do futebol alemão comandada em campo pelo extraordinário Beckennbauer, um dos maiores zagueiros de todos os tempos e do incrível faro de gol do artilheiro Gerd Muller, jogando à sul americana em um estilo muito parecido com aquele que se praticava no Brasil.

A partir dessa copa e da derrota de uma geração que consagrava o Palmeiras como o melhor time do Brasil com seis convocações de (Leão, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Leivinha, César e Ademir da Guia), a filosofia, as táticas, a preparação e o modo de jogar da Europa começaram a ser implantados, paulatinamente, no Brasil até invadi-lo, tomar conta e submetê-lo totalmente, com o apoio e propaganda das redes de tv e dos canais que vivem da exibição dos campeonatos do Velho Mundo. 

Em minha avaliação, em um único item a transmigração da escola européia de futebol para o Brasil beneficiou o futebol brasileiro; na valorização e no aprimoramento do toque de bola. 

O jogador brasileiro aprendeu a apreciar e praticar o jogo coletivo e a valorizar o passe final, justamente aquele que habilita um companheiro mais bem colocado para o arremate a gol e diminui o desejo de cada atleta no sentido de aparecer individualmente.

Sei, perfeitamente, da importância do jogo coletivo, até porque o futebol é um esporte coletivo. Nesse ponto, reconheço, aprendemos!

Há que se acrescentar, porém, ao jogo coletivo uma generosa dose de drible, acompanhada de criatividade, de ginga, de balanço e, enfim, do chamado talento individual, justamente a diferença que os jogadores e os clubes brasileiros impunham aos europeus e que agora, infelizmente, eles nos impõem.

Todo mundo se esquece que os times mais ganhadores dos torneios europeus, são dependentes dos craques que eles contratam a peso de ouro em países como a Argentina e o Brasil e que decidem, efetivamente, os jogos.

Para que não se vá tão longe, será que o Real Madrid seria o time que é sem  Cristiano Ronaldo?

E o que seria do Barça sem o argentino Messi e sem o uruguaio Suárez, o mesmo Barça que sentiu tanto a saída do brasileiro Neymar e só se recuperou parcialmente a partir da chegada de outro brasileiro um pouco menos dotado, o Felipe Coutinho?

Vejam que os principais jogadores da Europa são oriundos de outros continentes e são, exatamente, aqueles que por suas condições de individualismo, improviso, talento e virtuosismo, fazem a diferença.

PARA ENCERRAR:

Com as exceções decorrentes de um lance ou outro, de uma jogada ou outra, de um chute ou outro, o que se vê nos campos de futebol dos dias de hoje é sempre igual e se pode traduzir-se assim:

01) preparo físico de animal que faz o atleta correr muito mais do que corria, mas o predispõe rapidamente à estafa e às contusões musculares.

02) correria desenfreada em campo obrigando os atletas a um vai-vem constante e interminável durante os 90 minutos, desgastando-os prematuramente.

03) esquemas de jogo com excesso de marcação e predominância absoluta do defensivismo e de retrancas sem capacidade para contra-atacar..

04) toque de bola estéril e excessivo sem qualquer objetivo para o lado e para trás por falta de opções melhores para os passes.

05) dezenas de cruzamentos errados e desperdiçados entre um ou outro bem sucedido. O Palmeiras, por exemplo, não tem nenhum cruzador diferenciado.

06) má distribuição posicional e numérica dos atletas com aglomeração excessiva de jogadores nas intermediárias, nas entradas das áreas de ataque e nas próprias áreas defensivas.

07) tentativas de tabela infrutíferas em áreas, situações e regiões congestionadas, sem um mínimo de espaço útil para a manobra, repletas de adversários.

08) jogo concentrado exclusivamente de intermediária a intermediária, com constantes toques laterais ou para trás e pouquíssimos chutes ao gol.

09) pontas jogando como laterais recuando como se fossem beques o tempo todo e a toda hora, sem que ninguém se posicione para puxar os contra-ataques..

10) laterais jogando como pontas avançando o tempo todo como se fossem atacantes, deixando sempre um vazio em suas costas e  normalmente sem a devida cobertura;

11) atacantes jogando como zagueiros (caso de Borja) obrigados a voltar e em vez de obrigar (marcador e cobertura) se plantarem na defesa os atrai contra seu gol .

12) poucos gols marcados, com poucas exceções, muito mais por falhas dos beques ou das defesas, do que por mérito dos atacantes.

13) grande parte dos gols apenas em cobranças de córneres com o avanço dos zagueiros.

Antigamente havia tudo isso, é lógico, mas havia também talento e jogadores mágicos cujos dribles demoliam as defesas e arrebentavam com qualquer esquema defensivo por mais fechado que fosse.

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4 Comentários:

  • Às 16 de abril de 2018 08:31 , Blogger Ricardo Borgo disse...

    Show de narração. Fez-me voltar aos áureos tempos do rádio, onde ouvíamos craques da narração esportiva, e nem preciso citar nomes pois já foram deverasmente relatados aqui no blog. Ouvíamos uma narração esportiva pelo rádio e como mágica, nos transportávamos ao mundo real, como se estivéssemos assistindo à partida. Relatos desde a abertura até o final, de forma incrivelmente relatada inclusive com doses de poesia. Pena que isso tudo acabou, ao menos para mim. Agora temos jogos televisivos onde temos que aturar os Klebers, Miltons, Galvões, e tantos outros chatos de plantão que nos empurram goela abaixo coisas mais absurdas e indigestas que, em nosso caso, Palmeirenses, infelizmente a duras penas temos que engolir. Mas como o passado não volta mais, vamos aguentando o que temos para o momento. Só espero que pelos nossos lados tenhamos mais vontade de vencer, menos falhas individuais, menos coisas copiadas em prancheta e voltados a jogadas de improviso o que certamente nos presenteará, haja vista o vasto número de jogadores que temos e que, ainda não mostraram por que vieram.

     
  • Às 16 de abril de 2018 09:02 , Anonymous PorkiDoido disse...

    Concordo Alci (apelido carinhoso)

    Pra molecada de hoje em dia que:

    Diz que a Champions é melhor que a Liberta.
    Fala meu Barça, meu PSG, meu Real,
    Chama bolinho de copicaique,
    Sonha em ser ser youtuber.

    Ja deu a noticia pro seu pai?

    Hoje tem Palmeiras cusao, to fazendo Supletivo mas o fone de ouvido vai estar mil grau na orelha!!!

     
  • Às 16 de abril de 2018 15:03 , Anonymous MestredosMagos disse...

    Hoje tem mais um jogo daqueles que um técnico pé de chinelo pode até ganhar.

    Mas hora que precisar....

    Boca Jrs é a resposta.

     
  • Às 16 de abril de 2018 17:07 , Anonymous Elaine Lara disse...

    Blogueiros,
    Vai ser mais um ano perdido, esse ano é de Grêmio ou Cruzeiro, isso se a rede de esgoto não ajeitar tudo para o Itaquera, nosso time é G 6 e olha lá.
    Time sem alma, covarde, já sabe que quando não da certo a culpa vai para os apitadores, se divertem com altos salários, tatuagens, topetinhos coloridos e redes sociais.
    Para por ordem naquela displicência, precisa-se de um técnico tipo Mano, Abel ou Felipão, um diretor de Futebol a lá Emerson Leão, e Nobre de presidente.
    Se preparem que 0 resto de 2008 vai se de muito sofrimento.

     

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